Entrevista Metade Melhor

Em 2011, membros de bandas como Futuro, Speed Kills, Still Strong, La Revancha, Ideocrime e Vítima, resolvem fazer algo influenciado por Jawbreaker e bandas da SST, Dischord e Subpop, mas sem muito cunho político de certa forma. O resultado não poderia ser outro. Confiram o papo que rolou com Xavero (guitarra e voz) e Xopô (guitarra e voz) na madrugada de 2 de Junho de 2012. Divirtam-se!

TSN – A mais ou menos 5 ou 6 anos atrás eu fiz uma entrevista com o La Revancha pra um zine que eu escrevia na época, se não me engano a entrevista rolou no mesmo período em que vocês tocaram no programa do gordo. A entrevista nunca chegou nas mãos de vocês e nem nas mãos das outras bandas por que eu não cheguei a lançar o zine por algum motivo que eu não lembro, até hoje tem uma pilha daquele zine lá em casa, deve ter uns 200, e hoje cá estamos nós de novo, outra banda, outra entrevista mas dessa vez sai o bagulho… Então papo furado a parte, Xopô e Xavero, vocês que tocam em um monte de banda bagaceira, por que montar uma banda como o Metade Melhor?

Xavero – Isso, você chegou no ponto certo, eu sempre toquei em banda bagaceira, hardcore rápido, pesado e etc. Só que nesse meio tempo eu sempre escutei esse tipo de som mais na manha, acho que o mesmo caso o Xopô, porém isso começou a me tocar mais nos últimos tempos, senti a necessidade de escrever músicas sobre o que eu pensava, desde lances pessoais e tal, colocar pra fora, isso saia fácil no violão ou na guitarra desligada, ai juntou com as bandas que eu estava ouvindo demais na época, Jawbreaker, Hüsker dü e toda a escola Sst, Dischord, muita coisa grunge da Subpop, ai acabei montando a banda nessa vibe mesmo, mas sempre tive a preocupação de não soar hardcore melódico, não soar brega sabe? Ser uma parada intensa sempre foi o primeiro proposito pra mim.

Xopô – Pô, vira e mexe eu penso sobre isso também. Durante um certo tempo eu tive bastante receio de começar a curtir bandas mais melódicas porque achei que nunca mais voltaria a escutar coisas mais pesadas. E bom, não foi o caso, eu continuo pirando demais em hardcore, independente da vertente, mas mesmo que isso tivesse acontecido, pra mim a necessidade de fazer algo mais “trabalhado”, digamos assim, também surgiu. E não é só isso; acho que tava na hora de conhecer mais sobre música mesmo… abranger mais e tal. Sei lá, eu não acho que essa linha melódica/grunge/indie é uma evolução ou algum tipo de regresso musical; simplesmente deu vontade, e achei que desacreditar dela não valeria a pena!

Metade Melhor | Matinê Punk | São Paulo (Foto por: Mateus Mondini)

TSN – Eu sei que o xopô não faz parte da banda desde a primeira formação por que ele me contou á algum tempo, como foi que ele entrou na banda? Depois que ele entrou mudou algo? Aceito as duas versões da historia.

Xopô – Xavero começa! (risos)

Xavero – (risos) Isso, a primeira formação era um trio, Alemão, Mila e eu, na tentativa de ser um Jawbreaker tupiniquim, as bases, a gente fez nessa formação, até rolava legal nos ensaios, mas depois do primeiro show foi batata, senti falta de outra guitarra, sempre falava isso pro Alemão, pois a coisa tava ficando muito punk rock e simples demais. A ideia da banda não era fazer algo total trabalhando, mas também nunca quis ser só punk rock, era sempre um pé na Dischord e outro na Subpop sei lá, sempre mesclando isso, queria deixar o som mais gordinho, se é que me entende. Eu já havia comentado sobre a banda com o Xopô, ele como sempre foi meu amigo, o primeiro show ele tava presente, passado um tempo ele comentou comigo que estava com um projeto mais melódico e tal, que iria cantar, chegou a me mandar uma música, na hora eu curti demais, comentei com o Alemão e com a Mila sobre chamar ele, todo mundo curtiu a ideia, já tinha comentado com ele por cima, ele curtiu muito, no primeiro ensaio ele já chegou com as músicas todas na base e cheio de ideias. O fato é que a entrada dele somou muito com a banda, tanto musicalmente quanto no animo, um cara que entra pra somar e tocar, não apenas tocar.

Xopô – Pô, eu vi a banda surgindo, quase. Acho que fui um dos primeiros a comentar sobre os vídeos dos ensaios que a Mila postava no youtube e pouco tempo depois o Xavero tava me pedindo opinião sobre as musicas também, foi tudo muito junto. Eu acho o Metade uma banda autêntica e quando eu entrei, percebi que todo mundo tava nessa vibe de acrescentar no som tudo que fosse possível pra complementar a ideia. Isso que o Xavero falou é crucial, a parada tem que funcionar pra somar, e sinto que todos estão fazendo o que podem da melhor maneira possível; isso dá um ânimo absurdo.

TSN – Eu lembro que quando estive em SP no início do ano, o Xopô comentou comigo sobre os primeiros ensaios que ele tava fazendo com uma banda nova junto com o Alemão, Xavero e tudo mais, perguntei como chamava a banda, e ele disse “o nome é Metade Melhor” achei animal o nome, mas logo de cara nem me liguei, outro dia em casa tava escutando o disco do One Last Wish e me toquei que tem uma musica deles chamada “My better half”, me senti o sherlock holmes por achar ter descoberto de onde tinha saído o nome da banda… Então eu pergunto, o nome veio daí mesmo? Se não, de onde veio?

Xavero  – Quaaase!

Xopô – Caraleo, você foi ainda mais longe!

Xavero – o nome veio da música “Better Half” do Jawbreaker, depois de pensar em vários nomes, esse foi o mais legal e como a gente canta em português, rolou esse.

Metade Melhor | Enfin Festa #2 | São Paulo (Foto por: Vitor Fiacadori)

TSN – Então passei raspando, mesmo tendo ignorado o óbvio (risos). Mas então, por que em português e não em inglês, considerando que a maioria das bandas nessa linha geralmente opta por cantar em inglês?

Xavero –  Pô, porque minha maior inspiração pra fazer esse tipo de som é meu brother Carlinhos, que sempre me ajudou em tudo desde quando montei a banda, até letra a gente escreveu junto, recentemente ele fez uma base e me mandou até. Againe e Polara são os grandes exemplos pra mim que se pode escrever em português, falar de coisas pessoas, com seriedade, intensidade sem soar brega.

Xopô – As palavras dele são as minhas, sem saída nessa! (risos)

TSN – Fora as bandas dos anos 80 e 90, eu admito que não conheço muitas bandas atuais que sigam a mesma linha de som de vocês (pra não dizer nenhuma), salvo o Jersey Killer da argentina que tem algo bem parecido. Em SP, tirando o Againe que voltou recentemente, tem outras bandas que de repente tem uma proposta ou mesmo só a sonoridade similar?

Xavero – Cara, que tem o cunho mais puxado pro punk rock eu não conheço. Eu posso citar o Twinpines, mas é a galera mais guitar e tal, mas que toca o som na nossa pegada, acho que Againe mesmo, sei lá.

Xopô – Eu vejo um identificação com a galera de fora do punk também, não sei porque. O lado bom disso é que as bandas similares não são, necessariamente, tão parecidas com a gente; cada uma tem uma identificação bem bacana. Bom, de exemplos que me vem à cabeça; Twinpines, Single Parents, Fire Driven, Againe, The Alchemists, O Inimigo, Futuro, Doppelgangers e por aí vai.

TSN – O contraste musical chega a ser um problema pra tocar, levando em conta que a maioria dos shows são compostos em maior parte por bandas rápidas e mais agressivas, ou em São Paulo já existe atualmente uma cena mais “punk rock” 00’s (digamos assim)?

Xavero – Na real tem uma cena melódica aqui em SP, que aceita bem esse tipo de som. O fato da gente sempre ter sido envolvido com essa pegada de som mais suja, ter contato com a cena sxe, essa galera acaba curtindo ou se aproximando mais, pelo contato que tem com a gente. Aqui em SP estão surgindo mais espaços pra show assim, tem o S/A em pinheiros que abre espaço para as bandas do nosso estilo, tocamos lá a um tempinho, show foi ótimo, só tocou a gente, mas foi divertido demais, colou mó galera diferete. Tem algumas bandas mais na manha, mas que seguem outra lin ha, que nós acabamos tocando juntos como rolou na matinê punk rock do Pedro, Gato Pardo e tal. Acho que existe bastante gente que gosta desse tipo de som, mas essas pessoas ainda não participam de cena.

TSN – Aproveitando o gancho, já que todos os integrantes da banda são straight edge(s), vocês abordam algo relacionado a isso nas letras ou deixam essa postura em evidencia de alguma maneira dentro do Metade Melhor?

Xavero – De outra maneira, pelo menos por mim eu não pretendo levantar uma bandeira de sxe com a banda, é um lance pessoal que é muito importante pra todos os integrantes, as vezes de forma subliminar a gente possa expor isso em alguma letra, marcando a mão com X nos shows, mas não assumindo uma postura de banda sxe, pois não tenho pretensão em propagar esse tipo de mensagem com o Metade Melhor, rola uma liberdade, mas esse não é o foco.

Xopô – É bem por aí mesmo. Todo mundo da banda é vegan e straight edge, mas a gente compartilha isso de uma forma meio individual; é mais uma questão de afinidade do que qualquer outra coisa, nem sei dizer se isso afeta em algo nas composições… creio que não. Aliás, pelo menos nesse momento sinto que deixar de levantar essas bandeiras não vai mudar em nada nosso caráter, e ainda sim o que estamos compondo não vai deixar, sei lá, de ser sincero, saca? Talvez seja até mais… “falamos disso outra hora, e se der na telha!”  (risos)

TSN – Ainda sobre o assunto, em poucas palavras, como vocês veem o straight edge atualmente?

Xavero – Vejo ele separado infelizmente, eu acabo percorrendo por vários lados, mas vejo que as pessoas continuam colocando barreiras musicais e estéticas no sxe, mas posso dizer uma coisa, está melhorando, a uns anos era pior, pelo que eu tenho visto na cena, tende a melhorar, espero que o sxe volte a ser algo com que as pessoas se importem e queriam levar essa ideia em frente.

Xopô – Eu vejo o sxe como algo cada vez mais separado, também. Não sei dizer se isso tem acontecido pela criação de muitas barreiras musicais e estéticas ou pela quebra das que já existiam. Isso é meio confuso pra mim, fico encafifado toda vez que tento esclarecer isso na minha cabeça, sei lá, não consigo achar uma resposta sólida. Talvez isso seja bom; pelo menos no que diz respeito a São Paulo, eu vejo a cena sxe como algo maduro, onde as pessoas se juntam para falar sobre as afinidades que tem, e eu acho que é assim que tem que ser, sendo bem realista. Afinidades que tem, não necessariamente vidradas na ideia de que “não beber é legal”, saca?!

Metade Melhor | D.I.Y. Fest | São Paulo (Foto por: Wander William)

TSN – Disco, por que ainda não lançaram nada? Pretendem lançar algo quando?

Xavero – Disco, pô, a gente já tem as músicas prontas, esse ano a gente já lança, vamos marcar estúdio o quanto antes.

TSN – alguma previsão?

Xavero – 2012 (risos)

TSN – (risos)

Xopô – (risos)

TSN – boa

Xavero – Pô, eu vou pra Europa em agosto, quero gravar em julho no máximo sei lá, depende dos compromissos de todos.

TSN – Pra fechar, queria agradecer demais a vocês pela entrevista, demorou mais saiu mesmo que aos trancos e barrancos e ainda assim foi classe A, espero poder voltar logo por aí pra dar aqueles rolês maneiros de trupie com o Xopô e Esbarrar com o Xavero na Paulista. Força no Metade Melhor. Agora fica aquele veeelho, porém clássico espaço pra vocês dizerem o que quiserem, mandem brasa.

Xavero – Arte, música, barulho, qualquer tipo de manifestação sincera e que tem envolvimento com contra cultura é valida, vamos ter mais raiva, falar de dentro mesmo, colocar mais intensidade pra fora, espero que as pessoas valorizem isso cada vez mais fora e dentro do nosso circuito. O hardcore é o lugar onde você pode ser você mesmo, então vamos jogar limpo com o que nos temos, usar isso de forma positiva, sem ambições sabe? Tentando mudar alguma coisa, mesmo que seja você, valeu o espaço Robson, muito obrigado pela oportunidade, sempre sxe.

Xopô – Puts, as palavras do Xava são as minhas também. O que propomos é: pegue toda a sua raiva de espírito, bote o máximo que conseguir dela para fora e da maneira mais sincera possível e “voilá”; é nesse pé que estamos…dê um flex your head nas ideias e deixe um pouco de lado a abstração cotidiana, afinal nós não fazemos parte de uma cena perfeita, cometemos erros e convivemos com pessoas imperfeitas, mas estamos vivos e sendo nós mesmos. Incentivamos a todos que estiverem lendo que façam o mesmo; é preciso primeiro se (re)conhecer pra depois poder evoluir.

TSN – E enquanto os caras não lançam nada, ficam 2 videos da banda pra conferir e ficar na expectativa do disco.

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