Entrevista The Renegades of Punk

TSN – Então Daniela, antes de falar da banda eu gostaria que você falasse um pouco da cena de Aracaju, que imagino eu ser tão quente quanto Belém.

DANIELA – (Risos)  Total!  Em Aracaju até que temos algumas bandas, mas ultimamente os shows estão mais escassos, pessoas envolvidas mais escassas e lugares pra fazer os shows também. É um pouco estranho pra mim falar em “cena” como um todo, como muita gente faz quando se refere ao que anda acontecendo aqui em termos musicais, prefiro falar do nicho no qual estamos inseridos, ou seja, contracultura, punk, etc. Aí eu posso afirmar com bastante convicção que acontece pouca coisa mesmo. Existem bandas que ainda continuam tocando e produzindo, fazendo shows e tentando manter a chama acesa, mas cada vez menos o subterrâneo parece ser atraente para os que chegam. Muita energia e juventude são perdidas enquanto isso, com festivais de covers, por exemplo, mas alguns (poucos) malucos continuam nesse caminho. A Karne Krua, por exemplo, que está na ativa a mais ou menos 27 anos, é um exemplo e motivação pra gente que gosta disso mesmo e quer permanecer aqui.

TSN – Bem legal isso aí que você falou sobre nicho, acho que hoje em dia a palavra “cena” é muito mais usada pela facilidade de interpretação do termo, talvez por ser algo comum nesse meio… Mas me diz, como foi que vocês se envolveram com o hardcore/punk?

DANIELA – Acho que essa eu só posso responder por mim mesma. Eu comecei a ouvir pop/rock na minha pré-adolescência e comecei ouvindo o que estava no rádio, TV, ou o que era mais fácil de achar – via tios mais velhos ou amigos de escola. Progressivamente fui conhecendo bandas mais “pesadas” até que comecei a ouvir coisas como L7, Sex Pistols e Ramones. Nessa época eu já tocava uns três acordes e queria formar uma banda só de garotas com amigas de escola. A gente começou a tocar tendo como referência uma mistureba de sons e a banda rolou, começamos a tocar, conhecemos mais pessoas e depois, através desses novos amigos fui entrando mais no hardcore-punk; conhecendo bandas, zines, sites… Quando dei por mim eu já estava gritando numa banda de hardcore.

      Fotos por: Rafael Passos

TSN – Agora sim, sobre THE RENEGADES OF PUNK; do Triste fim de Rosilene que era uma banda supersônica, passando pelo xReverx que já tinha umas pegadas mais punk, até chegar no RENEGADES, como foi esse processo de decrescente velocidade mas de (na minha opinião) genialidade impar referente as 3 bandas?

DANIELA – Valeu pela “genialidade ímpar”! Em uma música da Renegades a gente fala que ficou mais velho e mais lento, e é verdade, mas este processo de desaceleração não foi, como em tudo o que fazemos, em nada proposital. Vivemos a Triste Fim de Rosilene de forma bem sincera e chegou um momento em que a banda acabou, não tinha mais como existir mesmo e foi algo que acho que assimilamos bem. Era algo intenso e bem sofrido até que chegou um momento em que aquele sofrimento deu lugar a outras formas de expressão. Antes da Triste Fim acabar, eu, Ivo e Alex (guitarrista da TFR) começamos a ficar brincando com os instrumentos dos outros no final dos ensaios, Alex continuou tocando guitarra e eu e Ivo fomos fazer algo que nunca tínhamos feito. A gente se divertia muito, ria muito e no primeiro dia em que isso rolou fizemos 4 ou 5 sons – eram simples e honestos. Achamos que podíamos mesmo virar uma banda e foi o que fizemos. Acho que a velocidade teve a ver com o que ouvíamos na época: muito L’amico di Martucci, Jellyroll Rockheads e punk rock clássico. Com o natural fim dessa banda, eu comecei a fazer uns sons, tinha um projeto de tocar com umas amigas (ideia fixa da minha vida! Risos) que ficaram engavetados porque a banda, obviamente não deu certo. Daí, Ivo e eu juntamos uma coisa que eu tinha aqui, ele outra que tinha ali e a Renegades of Punk nasceu. No momento o clima era outro e o som acabou refletindo isso. Foi uma época difícil pra gente em alguns sentidos e com relação a amizades e tretas locais. Daí a pegada acabou sendo mais lenta e mais rabugenta. Tem amigos que veem uma progressão nesse percurso, eu só consigo falar dessa progressão descrevendo os climas de cada época mesmo.

TSN – Uma curiosidade que sempre tive foi em relação ao nome da banda, realmente é uma tirada com o disco lá do Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force “Renegades of Funk” (que a propósito, tem uma capa animal, a lá uncanny x-men) ou é só coincidência mesmo?

DANIELA – O nome veio do misto de um trocadilho com o nome do disco do Afrika Bambaataa e do sentimento que tínhamos nessa época estranha que comentei antes. A gente se sentia realmente renegado, daí fizemos uma brincadeira como sugestão pro nome da banda e ele acabou ficando mesmo.

TSN – Por que vocês se sentiam renegados? Era algo mais pessoal ou tinha haver com outras coisas que estavam acontecendo na época?

DANIELA – Era algo bem pessoal, mas tinha muito a ver com o entorno também. Chegou um momento em que não nos sentíamos conectados com nada à nossa volta, e olhe que pro hardcore local foi até uma época prolífica. Acontecia muita coisa, muita competição e muita treta, consequentemente; E a gente ficava meio enojado e afastado, cada vez mais, de tudo o que repudiávamos. De repente a gente não se encaixava mais em quase nada que víamos acontecer, sentimos por nós mesmos, e pela parte das outras pessoas, que éramos renegados.

The Renegades of Punk | Salvador – BA (Foto por: Fernando Gomes)

TSN – Sobre os registros da banda; dando uma recapitulada, em 2008 vocês lançaram uma demo que saiu pela “barulho de retardado”, em 2009 veio o split com o Mahatma Gangue que é outra banda que eu acho demais, em 2010 o Renegades saiu no “conspiração coração ao contrário” junto com Velho, Homem Elefante, Ornitorrincos e Estudantes, por fim ainda em 2010 saiu aquele EP do carrinho de super mercado pela Thrashbastard da Alemanha. como foi que rolou a oportunidade de lançar por um selo gringo? e como foi a experiência de ter lançado o primeiro material em vinil?

DANIELA – O Andréas já tinha lançado algumas bandas nacionais e dado role por aqui. Não sei exatamente como se deu o contato, foi com Ivo… Acredito que tenha sido via internet mesmo, Myspace. Ele curtiu a banda e conversamos sobre lançar algo, ele sugeriu lançar a demo em um 7’’ e achamos animal. Nossa, queríamos muito ter algo registrado em vinil, mas as condições por aqui não eram muito favoráveis, então o lance com o Trashbastard foi providencial (Risos). É um formato que curtimos demais e que virou uma micro-realização. Ainda queremos lançar coisas em 7’’ e 12’’, o problema, por enquanto, é só a logística da coisa, tem que rolar toda uma estratégia né!? Esperamos que role novamente em breve, com o nosso próximo lançamento.

TSN – Vocês já tocaram em São Paulo e mais pro centrão, geralmente as bandas mais daqui do Norte e Nordeste que vão pra lá dizem que é diferente, tanto com relação a estrutura quanto com relação a energia, socialização e várias outras coisas, você também teve essa impressão? ou é normal e não tem nada demais?

DANIELA – Nós tocamos pelo Nordeste e pelo Sudeste, e é sempre diferente. Em cada lugar que você vai é diferente, pra você ter uma ideia, sempre comento sobre como é, por exemplo, ir até Salvador (BA), é uma cidade num estado vizinho ao nosso, super perto, mas é outro mundo. A gente sempre se sente deslocado lá, mesmo tendo muitos amigos, é todo um clima diferente e isso a gente sente em cada cidade que passou. Normal, né!? Em São Paulo a estrutura e o clima são outros, é incrível ver a Verdurada, um puta evento DIY daquele tamanho e com aquela organização! Em todos os shows que fizemos no Rio e lá vimos que as condições são outras, até os pequenos shows com estrutura mínima foram muito legais, você compara com o que você geralmente tem na sua cidade e até fica meio triste, mas isso acaba virando combustível pra gente tentar botar a coisa pra frente e melhorar o que dá sempre. A gente entende, obviamente, que a cidade é gigante, é uma metrópole, e lá a muitos anos rola muita coisa no subterrâneo. Já existe um contexto que envolve as iniciativas das pessoas que se envolvem com os corres, aqui na nossa área a gente ainda está tentando construir esse contexto, e o clima reflete tudo isso, muita gente envolvida ou que curte aquilo tudo que rola lá mas a troca de contato e energia se dá de forma bastante particular, como é de se esperar. As pessoas que vão aos shows aqui em Aracaju têm um tipo de postura, as de São Paulo outra e as de Mossoró outra completamente diferente. Não é necessariamente ruim ou bom isso, mas pode ser frustrante pra quem está acostumado com um padrão determinado.

TSN – Levando em consideração tudo isso, você acha que as coisas de alguma forma aconteçam mais lentamente pras bandas que, mesmo envolvidas com o DIY, estão fora dos grandes centros?

DANIELA – Sim, mas isso tem a ver com o que comentei acima. São Paulo é meio que o terreno seminal de muita coisa importante e que veio a ser base pra bandas de outras cidades, do nordeste e de mais lugares onde não se tem tanta “tradição” assim nisso de contracultura, além disso, a distância foi á tempos atrás algo que fazia a diferença para que rolasse um intercâmbio maior, hoje em dia isso foi amenizado com a tecnologia, mas ainda continua difícil ser punk fora das grandes cidades por que existem poucas pessoas que se reconhecem/participam desse “esgoto”. A fala de contexto dificulta muito, mas aí a gente se vira do jeito que dá e escreve nossa história com o punk reinventado, com as nossas influências misturadas ao que a gente tem por aqui mesmo, e isso acaba por dar um sabor especial ao que é feito longe dos grandes centros. É claro que a gente que faz isso tudo e tem banda, preferia que fosse menos complicado e que as coisas andassem mais rápido, mas a gente faz o impossível e vai levando. E é isso que a gente curte fazer, seja da forma que for.

TSN – Qual é a relação de vocês com “o” Straight Edge?

DANIELA – Ivo e eu somos Straight Edges. O João não. Não mesmo, (Risos).
Sempre nos identificamos com isso do punk sem drogas, mesmo antes de conhecer o termo. É algo natural, faz parte de nossa vida, do que a gente é mesmo.

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TSN – Aqui em Belém já foi bem complicado ser SXE, talvez o desconhecimento da maioria das pessoas gerasse desrespeito e até ridicularização em alguns casos, mas com a crescente onda de pessoas que se envolveram com a coisa no final dos anos 90 e início dos anos 00, isso mudou bastante por aqui, hoje apesar de existirem pouquíssimos SXEs aqui, existe respeito por que quem tá envolvido com o hardcore/punk a algum tempo, sabe que o crescimento passado do SXE na região de certa forma contribuiu também pro crescimento do hardcore através de bandas, zines, coletivos, festivais, manifestações e afins. Mas então; e do lado daí? Como é ser Straight Edge em Aracaju?

DANIELA – Sei lá, acredito que deve ser igual a qualquer outro lugar, a gente tenta fazer nossas coisas e viver do jeito que a gente acredita, se sente bem e isso por muitas vezes é uma ofensa para várias pessoas. É difícil pra muitas delas entender que a gente não vincula amigos, festas, shows ou qualquer outra coisa com bebida, por exemplo, e por incrível que pareça isso é o que a gente mais sente no sentido “repressão” por conta de nossa conduta. Aí rola o bullying costumeiro com as piadinhas sem graça e o pré-julgamento sobre a gente. Penso que em qualquer canto deve ser assim, isso tudo é chato, mas não me abala tanto mais. Viver na contramão não é fácil; fácil é fazer o que todo mundo faz.

TSN – Falou tudo e mais um pouco. Mas então, a alguns dias atrás vocês tocaram com uma banda que eu acho sensacional, não só pela musica, mas pela atitude e simplicidade que eles tem, o TUNA, que por sinal eu já tive o enorme prazer de entrevistar aqui, como foi a experiência de tocar, interagir e trocar ideias com eles?

DANIELA – Demais! Já conhecíamos a galera de outros carnavais e eles sempre foram uns fofos. Admiro muito a banda e toda a correria que eles fazem, vivendo mesmo o DIY. Ivo até os chamou de guerreiros do punk ou do subterrâneo nacional num post que fez sobre o show e eu assino em baixo, a banda é foda, o show é só “feeling” e a interação com as pessoas é bem fácil e sincera, curtimos muito o rolê e já já os encontraremos novamente na descida deles indo de volta pra casa.

TSN – Que sorte heim! E eu aqui salivando pra assistir um show deles (Risos).
Mas voltando pro Renegades, eu tô sabendo que vem disco novo por aí, isso por que conversando em um outro dia, você falou algo sobre gravação, então fala um pouco sobre esse novo registro e o que dá pra esperar dele?

DANIELA – Estamos finalizando nosso primeiro full e esperamos sinceramente lançá-lo o quanto antes. Exatamente agora estamos nos ajustes finais com fábrica e selos pra fechar logo isso, o álbum vai ter 12 sons novos, algumas parcerias e uma música requentada (Risos). É um apanhado de coisas que fizemos nos últimos 2 anos e representa um pouco do que a gente é agora, do momento em que a gente está, da influência que a entrada de João Mário causou na banda e essas coisas. A arte está por conta de um artista foda que tivemos o prazer de conhecer nesses rolês da vida, ele se chama Matias Araoz e é desenhista/tatuador. A gente tá gostando do que está rolando… A vontade é de compartilhar isso tudo o mais rápido possível com as outras pessoas e os amigos.

TSN – Admito que desde já eu tô bem ansioso pra escutar esse disco (Risos), mas além disso tudo, tem mais alguma novidade do Renegades pra 2012?

DANIELA – Por enquanto é isso do álbum mesmo e mais alguns rolês que a gente vai fazer tocando. Em novembro vamos para o sul pela primeira vez – estamos muito animados de conhecer pessoalmente pessoas que à distância temos contato a tanto tempo, e tocar com bandas que gostamos! Antes disso a gente tá conversando com algumas pessoas sobre ir pra outras regiões, mas nada 100% certo ainda, além disso, quem sabe um videozinho da banda? Temos amigos que nos prometem há alguns anos isso, vamos ver se rola tempo e vontade deles ainda! (Risos).

    Fotos por: Rosane Calegari

TSN – Que demais heim… Daniela, queria te agradecer muito pela entrevista e dizer que foi um prazer enorme pra mim poder trocar essa ideia com você, toda força do mundo pro Renegades of Punk, que o disco fique pronto o quanto antes, que os rolês sejam destruidores e que vocês toquem aqui em Belém um dia. Algum recado final pro povo que acompanha o site aqui?

DANIELA – Obrigada Robson! O prazer foi meu. O site tá muito legal, ficamos felizes de participar dele um pouquinho. A gente tem vontade de ir pra vários cantos, nunca fui ao norte, seria muito legal! Espero que role um dia e que não seja daqui a muito tempo.
Valeu pela força, pelo espaço e pela atenção. Força pro site também e que você continue com ele, firme e forte. Valeu a todo mundo que perdeu alguns minutos da sua vida pra ler esse bate-papo; espero encontrá-los algum dia. Vamo que vamo, e como diz um amigo nosso “somos punk pra valer e não podemos parar” (Risos).

Tropical Punk!

The Renegades of Punk – s/t EP7″ (2010) – download

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